Da Redação — O cenário de instabilidade geopolítica no Oriente Médio está redesenhando o mercado automotivo europeu. Impulsionados pela disparada nos preços dos combustíveis — reflexo direto da guerra envolvendo o Irã —, os veículos elétricos (EVs) registraram um salto expressivo na demanda por modelos novos e usados em todo o continente.
Embora o recente acordo entre Estados Unidos e Irã traga uma perspectiva de trégua, os gargalos logísticos no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz devem manter a gasolina valorizada por meses, sustentando o interesse pela eletrificação. Executivos de grandes montadoras, como Renault e Ford, admitem que o conflito atuou como um forte catalisador de vendas, mas alertam que uma eventual queda futura nos preços do petróleo pode desacelerar esse ritmo.
Por outro lado, especialistas do setor apontam que a expansão da infraestrutura de recarga e a chegada de modelos mais baratos ao mercado já transformaram a transição energética em um movimento estrutural e permanente.
Em maio, o emplacamento de novos elétricos avançou 34% na comparação anual, considerando 17 mercados que concentram a quase totalidade das vendas na União Europeia e na Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA).
Os dados, consolidados pelo grupo New Automotive e pela E-Mobility Europe, revelam que os modelos 100% eletrificados já representam um em cada quatro novos registros na região. Esse avanço acompanha o forte ritmo global detalhado pela Agência Internacional de Energia (AIE) no relatório Global EV Outlook: após um crescimento de 20% em 2025, quando as vendas globais romperam a barreira de 20 milhões de unidades, a projeção para este ano é atingir 23 milhões de emplacamentos.
Isso significa que quase um terço de todos os carros novos vendidos no mundo serão elétricos, puxados pelo avanço europeu e pela explosão de mercados emergentes na América Latina e na Ásia-Pacífico, que compensaram retrações pontuais sofridas nos Estados Unidos e na China no início do ano.
O protagonismo desse mercado segue amplamente concentrado nas mãos da China, que controlou 60% das vendas globais e três quartos da fabricação de elétricos no ano passado. Com uma produção excedente, as exportações chinesas dobraram e superaram a marca recorde de 2,5 milhões de unidades, fazendo com que as marcas do país passassem a responder por 55% dos elétricos vendidos fora dos três grandes polos mundiais (China, Europa e EUA).
Além de deter mais de 80% da fabricação global de células de baterias, a China vem quebrando a barreira do preço inicial na Europa ao lançar modelos compactos e acessíveis, como o hatchback Dolphin G, da BYD. O impacto dessa concorrência agressiva já se reflete no varejo físico e digital: na plataforma alemã Carwow, o interesse por EVs estabilizou-se em um patamar histórico acima de 70%, enquanto no marketplace francês OLX, as buscas por marcas chinesas quadruplicaram em um ano.
Esse fluxo acelerado de novos veículos acabou por amadurecer e baratear também o mercado de seminovos e usados, transformando os EVs em opções financeiramente mais competitivas do que os automóveis a combustão.
No Reino Unido, por exemplo, modelos elétricos com dois a quatro anos de uso chegam a ser comercializados por cerca de um terço do seu valor original, gerando uma forte base de compradores. Analistas de inteligência de mercado, como os da Cox Automotive e da plataforma dinamarquesa Bilbasen, preveem que a alta procura deve valorizar os usados em até 10% nos próximos meses, estabilizando os preços após as severas reduções de margem lideradas pela Tesla no ano passado.
Diante desse ecossistema fortalecido, que agora se expande fortemente para os segmentos de caminhões e veículos de duas rodas, a AIE estima que a frota global de elétricos salte dos atuais 80 milhões para impressionantes 510 milhões de unidades até 2035, consolidando uma virada irreversível no transporte global.








































