Da Redação — O Brasil deu um passo histórico para consolidar sua autossuficiência na produção de insumos estratégicos voltados à saúde pública. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio de seu Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), finalizou o processo de transferência tecnológica para fabricar internamente o dolutegravir. Trata-se do antirretroviral mais utilizado no país para o tratamento do HIV, distribuído sem custos na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e consumido atualmente por mais de 770 mil brasileiros.
O projeto de nacionalização teve início em 2020, quando Farmanguinhos firmou uma parceria com a desenvolvedora do composto, a ViiV Healthcare (empresa especializada pertencente ao grupo biofarmacêutico GSK). Ao longo dos últimos anos, o laboratório público da Fiocruz recebeu aportes contínuos para reestruturar sua infraestrutura fabril, comprar maquinários avançados e treinar seus quadros técnicos. Embora a distribuição de lotes importados e embalados pelo instituto já ocorresse desde 2022 — somando mais de 739 milhões de cápsulas entregues —, o controle completo de qualidade laboratorial foi assumido pela instituição nacional em 2025.
Com a transição de tecnologia totalmente concluída, o laboratório já produziu e validou com sucesso três lotes pioneiros do remédio em solo brasileiro. A distribuição desse primeiro estoque nacionalizado aos postos de saúde agora depende unicamente do aval regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Paralelamente, o corpo de cientistas trabalha na validação dos métodos de análise do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), elemento essencial para garantir a independência total da cadeia produtiva.
Recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2019 como a terapia preferencial de primeira e segunda linha — inclusive para gestantes —, o dolutegravir atua bloqueando a enzima integrase, o que interrompe o ciclo de replicação do vírus nas células de defesa. A substância destaca-se por sua alta eficácia em reduzir a carga viral a níveis indetectáveis de forma rápida, com baixo índice de efeitos colaterais. O cronograma de cooperação com a GSK prevê ainda uma etapa futura: Farmanguinhos planeja iniciar, já no próximo ano, a fabricação doméstica do medicamento em formato combinado (composto de dolutegravir associado à lamivudina), também distribuído de forma gratuita na rede pública.









































