Da Redação — O avanço da comunicação em tempo real transformou-se no mais novo obstáculo para a segurança viária no Brasil. Um estudo detalhado do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), divulgado nesta sexta-feira (19) — data que marca o Dia Nacional da Lei Seca —, revela que as tradicionais operações de trânsito perderam parte do elemento surpresa. Com motoristas compartilhando rotas e localizações exatas de blitze por meio de aplicativos de navegação e redes sociais, burlar a fiscalização ficou mais fácil. Esse cenário de evasão digital, somado à explosão da frota de motocicletas no país e às pernas curtas da fiscalização — que esbarra em limites de pessoal e bafômetros —, ajuda a explicar por que a curva de mortes voltou a crescer após o período pós-pandemia.
O repique das mortes e o perfil no banco dos réus
Embora a Lei Seca permaneça como um escudo vital que reduziu drasticamente o número de tragédias no longo prazo, o relatório mostra que a trajetória de queda perdeu o fôlego. Em 2010, o país registrava o patamar de 15 mil mortes associadas à perigosa mistura de bebida e volante. Em 2024, o total fechou em 13.075 ocorrências. Apesar do recuo acumulado em 14 anos, os indicadores acenderam o sinal de alerta ao iniciarem uma rota de ascensão contínua a partir de 2020. No banco dos réus dessa estatística, o perfil das vítimas não mudou: os homens continuam liderando com folga os índices de mortalidade e acidentes, tendo os jovens como o grupo mais vulnerável e exposto ao risco nas estradas e perímetros urbanos.
Além do choque: a receita para mudar o comportamento
Para reverter o atual cenário de subida nos óbitos, especialistas em segurança defendem que o país precisa aposentar o modelo antigo de educação no trânsito. Campanhas publicitárias baseadas exclusivamente no medo, com imagens chocantes ou violentas, provocam apenas um impacto psicológico temporário e falham em mudar os hábitos da população a longo prazo. A receita proposta pelo Cisa combina fiscalização rigorosa com uma percepção clara de punição real, fazendo o condutor entender que será pego se beber. Essa mudança cultural deve vir acompanhada de alternativas práticas de mobilidade nas madrugadas e fins de semana, como a ampliação de transportes públicos acessíveis e o incentivo ao uso de aplicativos de carona.
O mapa do risco: Tocantins lidera mortalidade no país
O levantamento do Cisa joga luz sobre as profundas disparidades estruturais entre as regiões brasileiras. No ranking da mortalidade proporcional por 100 mil habitantes, o Tocantins aparece isolado com o índice mais grave do país, acompanhado de perto por Piauí e Mato Grosso. Quando o recorte analisa as internações hospitalares decorrentes de acidentes alcoolizados, o topo da lista muda de mãos, evidenciando crises nos sistemas de saúde do Espírito Santo, Pará e Acre. De acordo com os pesquisadores, essa fragmentação dos dados é explicada pela combinação de rodovias mal conservadas, menor presença de postos policiais e a crônica dificuldade de acesso a serviços de resgate e emergência médica nessas localidades.










































