Quarta-feira-30 de setembro de 2026 - Email: [email protected]

Redes sociais: O feed virou termômetro emocional — e o Brasil está com febre alta


Se antes a vida online era um apêndice do cotidiano, hoje ela é o próprio cotidiano. O uso massivo de redes sociais explodiu nos últimos anos e, sem aviso prévio, passou a ditar não só o que a gente vê, mas como a gente sente. E sente rápido: sem pausa, sem digestão, sem silêncio. Resultado? Emoções em modo automático, reguladas por likes, comparações e manchetes sombrias.

Não é uma impressão. É uma rotina global — e o Brasil está no topo dela. Segundo levantamento da Electronics Hub (2023), o país é o segundo no mundo em tempo de tela: os brasileiros passam 56,6% das horas em que estão acordados diante do computador ou do celular. Só perdemos para a África do Sul. Em outras palavras: a gente passa mais tempo olhando para uma tela do que vivendo fora dela.

Um cérebro só, informação demais
Para a pesquisadora Flávia Ceccato, do CPAH (Centro de Pesquisas e Análises Heráclito) e autora de “Descobrindo a Inteligência Existencial”, não existe organismo preparado para esse bombardeio emocional ininterrupto. O cérebro humano não foi projetado para processar dezenas (às vezes centenas) de estímulos afetivos por hora — muito menos sem respiro.

“Cada vez mais nós estamos constantemente reagindo ao que vemos nas redes sociais em conteúdos cada vez mais rápidos e sem tempo para elaborar e de forma cada vez mais frequente e intensa”, afirma.

Traduzindo: rolamos o dedo e, a cada movimento, o corpo tenta acompanhar — alegria, inveja, raiva, medo, desejo, pena, ansiedade. Tudo junto e misturado. Sem tempo para entender de onde veio, para onde vai, ou se é mesmo nosso.

“Isso reduz bastante a capacidade de sentir, interpretar e organizar nossas próprias emoções, que tem vários efeitos negativos no nosso dia a dia”, diz a pesquisadora.

Hiperconexão: a fábrica de inquietação
A lógica das redes é simples: estímulo forte, recompensa rápida. Mas a conta vai chegando. Flávia Ceccato aponta que a hiperconexão empurra muita gente para fora de si, numa busca contínua por validação externa. A régua do afeto vira pública, e a autoestima vira estatística.

O efeito dominó aparece no corpo e no comportamento: mais ansiedade, irritabilidade, impulsividade e uma espécie de confusão emocional permanente. A vida interna perde espaço para o imediatismo do feed.

“A inteligência existencial nos ajuda muito a resgatar esse senso de propósito e presença, mas estamos perdendo essa habilidade quando vivemos apenas no imediato e isso é bastante perigoso”, alerta.

E perigoso por quê? Porque emoções não elaboradas não desaparecem — elas se acumulam. E um dia transbordam em forma de exaustão, explosões de raiva, apatia, ou aquela sensação difusa de estar sempre “em falta”, mesmo quando tudo parece ok.

O que está em jogo
A discussão, no fundo, não é sobre tecnologia ser “boa” ou “má”. É sobre ritmo. O ritmo que nos foi imposto — e que estamos aceitando — está desmontando habilidades básicas: esperar, tolerar frustração, ficar entediado, refletir antes de reagir. A era digital nos oferece conexão total, mas cobra o preço da desconexão íntima.

A pergunta que fica é provocativa e simples: quem está regulando suas emoções? Você — ou o algoritmo?

Quem é Flávia Ceccato
Flávia Ceccato Rodrigues da Cunha é auditora no Tribunal de Contas da União (TCU), com trajetória acadêmica ampla e interdisciplinar. Formada em Física pela Universidade Cruzeiro do Sul (2024), tem pós-graduação em Ensino de Astronomia (2023) e especialização em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual (2025), além de bacharelado em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG e mestrado em Regulação e Gestão de Negócios pela UnB.

Como escritora e pesquisadora, destacou-se pela aplicação da Lei de Benford em auditorias de obras públicas, sendo autora do livro “Seleção de Amostra de Auditoria de Obras Públicas pela Lei de Benford”. Estuda sobrepreço em casos como a reforma do Aeroporto Internacional de Minas Gerais e as arenas da Amazônia e do Maracanã. Prepara para maio de 2025 o lançamento de “Existential Intelligence: Tools, Insights and Implications”, aprofundando pesquisas sobre inteligência existencial.

Flávia trabalhou também na Controladoria-Geral da União e na Receita Federal, integra sociedades de alto QI e filosóficas (como Mensa Brasil, Intertel e ISPE), é palestrante internacional, pesquisadora do CPAH e foi diagnosticada com superdotação profunda.

Angela Rocha – MF Press Global






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